Ensaio sobre o amor

     –O sonho orienta a conquista. Ja diziam desde sempre que sonhar leva às nuvens e que o limite é o céu.

     — Não entendi…

     — Você ja parou pra pensar, porque um um indio adentra a mata sem pensar no perigo? E o marinheiro, porque se lança no mar sem saber se chegara vivo?

     — Você esta mudando de assunto…

     — O pobre camponês se contentava em ser miseravel sem saber como seria o paraiso, o alpinista escala o Everest sem talvez alcançar o pico.

     –Eu perguntei se queria namorar comigo. Se não quiser pode dizer. Não precisa me enrolar com esse momento cultural…

     — O astronauta entra no foguete sem conhecer o espaço, o soldado vai pra guerra sem conhecer o inimigo…

     –Ok, você não gosta de mim… Me diz, por quê?

     –Porque eu também não sei… Talvez uma transfiguração da realidade. A busca por um ideal… Mas eles tem algo em comum…

     –Ann? Do que você esta falando? Me responde, fala comigo!

     –Do medo. O amor é como um desafio, todos se lançam ao perigo sem saber a quantas ficara o coração.

     –E você não sabe…

     –Eu ensaiei sobre isso uma vida, tentando um dia entender se amar é inseguro, porque amo você?

                                                                                Tassiana Frank

                            Ponto Final 
 

                  Morro a cada vil palavra

                       que seus olhos com indiferença

                       condescendem aos labios profanar

 

                       Que com juras enfastiadas de emoção

                        fizeram em pranto um coração

                        que soube ter, porém nunca amar

 

                       Dê-me um amor que eu ame

                       e que possa amar-me a mim

                        como você não soube.

                                                                                  Tassiana Frank

                            Pausa
   

     A paixão é vicio, precipício atraente, cega, surda, muda, inconseqüente. E tanto é que ela esta lá, ultrapassando os limites do bom senso, deitando o cabelo em um balde de ilusão. Alguns me dirão: Tu és amargo! Não compreendes o brilho dos olhos dela? Sim. Eu compreendo, e por compreender faço essas afirmações. Ora, não pensem que sou daqueles resguardados, surrados de insegurança. Apenas me cansei de utopias. Fui contaminado pelo vírus da razão, pelo senso cruel de realidade. Já não construo mais meus castelos na areia. Já não deixo enfeitiçar-me pelo canto da sereia. Acho até que por isso, venho me sentido tão vazio. Mas, não. Não vestirei aquela moça com o meu amor. Dela, eu esperaria retorno. E do amor não se espera retorno, ele quer apenas se doar por inteiro. A paixão que é mesquinha, egoísta, imatura. Hoje, sinto que me desprendi das paixões passadas. Resta-me apenas a paixão presente, a paixão constante, pela vida.

     E caminho so. Intensifico minhas descobertas, me embalo pelo tempo atroz, e sem ter com quem dividir, me perco em sorrisos vazios. Escolho liberdade embora nunca tenha desejado tão intimamente prender-me. Sei, sou egoista, mas gosto de ter-me em controle. Não quero me perder nas notas daquela canção, não quero me tornar inseguro e irracional. Gosto do silêncio, sinto-me bem so. Mas a solidão apesar de recorrente, se instalou em mim de uma forma permanente, a sentir-me sozinho dentre multidões. “Insensivel!” Dizem que sou. Posso mascarar meu medo como insensibilidade, e como mitomaniaco acreditar que tal sou. Apenas acovardo-me diante da felicidade de lhe ter e sofrer por ventura perder. Perdi minha condição humana de arriscar-me a amores. Fujo da dor, rumo ao seguro e esquivo de tudo que arrisca a minha estabilidade. Sim, sou covarde! Mas so me julgues se fores liberto de temor! E acredite, a razão acaba quando a paixão inicia. Quem não se sente sozinho por muitas vezes? Procuro involuntariamente olhos que me digam as verdades ruins. So achei os seus. Meus caminhos nos encaminharam como num acaso que beira a destino e não coincidência. Não criarei em vão, artificios para afugenta-la. Seu brilho intenso escarna em minha alma que essa pausa so alimenta o meu vicio por você.

                                                        Tassiana Frank e Luian Damasceno

              Fotografia

                                                Aos meus amigos 

 

     Mafê acordou cedo naquela manhã tão feia. Dia nublado, céu encoberto por nuvens cinza. Um friozinho corria a espinha então se escondeu em meio as cobertas e ficou la quietinha pensando se deveria mesmo levantar.

    Lembrou que tinha que estudar, levar sua irmã na escola, ir no dentista, depois no balé e a noite no aniversario da Ju. Sem contar o relatorio da ong, (seu pai a mataria se não o fizesse). E afundou mais ainda na cama, desencorajada diante da sua rotina quase herculana.

     Mas o celular despertou, e sua irmã entrou correndo no quarto com uma folha na mão. O cabelo desgrenhado, uma big janelinha na boca e a Minnie arrastada pelo pé. Pulou na cama e puxou as cobertas até encontrar a irmã mais velha. Agarrou suas mãozinhas pequenas no pescoço dela, lhe deu um beijo na bochecha e entregou o desenho. Saiu correndo de novo intempestivamente, assim como havia entrado. Agora, deixando a porta aberta e gritando: “Mamãe, ela ja acordou.”

     E antes que Mafê pudesse irritar-se, aquelas bonequinhas de mãos dadas desenhadas no papel com mãos giagantes, olhos de e.t. e laço rosa, lhe arrancaram uma gargalhada contagiante de preencher quarteirão.

     Levantou feliz, comeu rindo e foi pra aula cantarolando Mogli: “Necessario, somente o necessario, o extraordinario é demais.” Depois chegou em casa e foi levar a pequena na escola. Quando voltou descobriu que havia esquecido o pen-drive na casa da sua amiga e foi buscar correndo pra fazer o relatorio. Com isso, faltou o dentista e saiu correndo pro balé. Os dedos doiam, (ficou uma hora na ponta!) e havia se esquecido de comprar o material do trabalho de amanhã. Foi correndo na papelaria, e finalmente as sete chegou em casa.

     O aniversario! Não deu tempo de comprar o presente! Estava tão cansada, tinha que acordar cedo amanhã… Mas olhou a foto da quarta série na mesinha e sentiu uma saudade corroer-lhe as entranhas.Tomou banho, se arrumou apressada e foi. Rever amigos que não via a tempos, e muito lhe faziam falta. Conversou sobre a nova novela, relembrou velhas historias de primario, reviram fotos antigas (como ela era gordinha e dentuça!), descobriu que a Julia estava namorando, a Thais havia conseguido o estagio, o Gabriel ia ser pai e que o Gui estava com problemas na familia.

     Foi a cozinha e quando voltou ficou um segundo encostada na porta da sala, olhando para todos. Como a Ju estava bonita! O cabelo do Gabriel enorme, a Amanda tinha emagrececido, e o Gui todo faceiro a sorrir. Estavam todos tão diferentes. Ela estava tão diferente. Não se encontravam sempre, as rotinas engoliam o tempo e a vida caminhava a passo de maratona. “Mafê, vem pra a foto!” , ouvindo o chamado,deixou a porta e correu para o sofa abraçando o maior numero de amigos que conseguiu.

     Quando chegou em casa, pôs-se se a comparar as fotos e sentiu-se feliz. Todos crescidos e com dentes de verdade, mas diferentes por dentro. A maturidade havia chegado e com ela os problemas, as renuncias, a responsabilidade e o cotidiano esmagador aonde não cabia somente o pique-esconde no jardim. Mas o importante é que continuavam amigos. Que podiam comemorar as conquistas e compartilhar os problemas. Que estariam juntos sempre que pudessem e que “conte sempre comigo” não era so um clichê de supermercado. Os problemas seriam divididos e convertidos em risadas mais além. Não importa quanto tempo ficarem longe, ele sera eterno enquanto estiveram juntos, foi o que ficou na fotografia.

                                                                                        Tassiana Frank

                                       Mimesis

 

     Via o mundo passar. Da janela correm as ruas e as estradas parecem não querer parar pra mim. Se os olhos transmitissem os desejos da alma seria um estrago. Posto dentro, verdade em si. Esperava dizer e gostaria calar. Hoje, em brado digo o que tardaria guardado: eu te amo. Sinto correr o céu, varrer o estômago. Passo horas, passo tempo, passo tanto que não passo, faço no dado momento que me vaga um instante. Despida de conceitos, sujeitos ou trejeitos escolho assim. Pudores e recatos consomem muito do fato so de pensar em si. Chamem-me de louca, digam que pirei ou que falhei ali. Mas hão de dizer que fiz! Se temo amar, é por não ser amada. Que venham então as efêmeras paixões! Lhe amarei hoje, lhe odiarei amanhã e depois, seu nome ousarei esquecer.

     A travessia, faço aqui. A maturidade me implica a intensidade da emoção. Necessidade de intensidade e busca de emoção. Peito aberto, coração fechado à espera de resgate. Meu amor-propio reside sei, até quando ouvir seu chamado. Não sei se amarei outro como à você, mas pode um dia, o coração estar ocupado, guardando apenas com embaraço lembranças de você. Se caminhar fosse sinônimo de mim… Ando, ando e me vejo estagnada, sempre a sua espera. Mas isso esta caindo por terra, caminho frente ao mundo e aos poucos construo um mimesis de mim.

 

     “Pensei, que haveria um pouco mais de amor para mim, guardei cada luar cada verso incoberto nas notas da canção. Pra quê? Se um vazio me esperava e eu não percebi, devolve meus dias, minha alegria, diz nos meus olhos verdades ruins.”

                                                                   Tasssiana Frank

            Quando se vende a alma à Dionisio

 

     Estava cansado de representar. A tanto aquilo não vinha lhe dando prazer. Sentir-se feliz é sinal de que não se vive inutilmente. E a sua cota de felicidade naquilo, ja havia se esgotado.

     No começo, nada lhe dava maior prazer. Despir-se de si mesmo e dar vida a quem quer que fosse. Um mendigo, rei, filosofo, assassino ou ladrão. Emprestou sua alma a Macbeth, serviu a dois amos inumeras vezes e arrancou suspiros como Lisandro. Se feriu como Calibã, comprou seu apartamento graças a Cabaré e o hipotecou pelo Balcão de Genet. Foi recluso pela Puta Respeitosa e solto graças a sua atuação no infantil Peter Pan (a filha do delegado tinha amado a montagem, ela não podia ver seu idolo na cadeia)!

     Sua vida era desejada por muitos e fatigadamente vivida. Bares quase todas as noites, passe livre para as festas, mulheres jorrando aos pés e horario flexivel. Dormia as quatro, acordava meio-dia. Ninguém sabia, mas sua cabeça era um inferno. Depois de muito tempo, os personagens perdem o controle e passam a dominar você. Ele se pegava cobiçando Ariel, duelava em meio a rua com Demétrio e travava monologos com Othello.

     Não podia dizer que a arte não havia lhe dado nada. Sua cicatriz na fronte e o pino no pulso eram o que? Eram marcas que o tempo não podia apagar. De material, apenas seu teto para morar. O carro também, mas teve que fazer uns extras como dublador.

     Sentar-se em seu camarim, vestir seu figurino… Se tornar outra pessoa. Todos os dias, como sempre. Ja não se lembrava de seus habitos ou de seus amores. Ah amores, ele teve! Varios. Casos rapidos, efêmeros que duravam até que lhe desse vontade de trocar. Amor, de verdade so amou uma. Mas depois de tanto tempo, ela não abriu mão de sua vida e ele sim. Deixou-a partir, coração fragmentado. Mas por uma paixão maior, aquela que lhe acompanhava na dor e na alegria. Consumia sua vida e até a mulher amada.

     Dizem que existem três definições de paixão. Dor, amor exacerbado e antônimo de razão. Acho que são complementos da paixão, pelo menos ele possuia os três. Se entregou de forma literal, ampla e dilacerante. Queria sua vida de volta. Tempo pra descobrir quem era, seus costumes e até um possivel amor. Gostava de café preto ou suco de laranja pela manhã? Era seu aquele terno ou era figurino?

     Nada de peruca, maquiagem ou falas impressas num papel que definia seu futuro. Olhos abertos, peito rijo e lascivia de mundo. Sentia sede de ser o alguém que se escondia dentro dele. Era tarde para o que passou, mas cedo para recomeçar. Seria injusto dizer que não foi feliz. Mas mais injusto ainda, dizer que valeu a pena.

 

                                                      Tassiana Frank

 

                Vendedor de Sonhos

 

     Ela não parava de rodar! E seria tão bom se não tivesse parado. Não sabia porque, mas eu não conseguia tirar os olhos daquela garotinha girando como pluma no ar. No auge de sua graciosidade, seus cabelos esvoaçavam. A roupa rosa de fada, a varinha de condão. Lia-se desprendimento, felicidade. Uma coragem, como se nenhum mal pudesse atingir. E eu não me sentia assim a muito. Como era de se esperar ela foi ficando tonta, e em seu movimento agora helicoidal, deu de encontro ao chão. Sem problemas, o palhaço a ergueu.

     Ela não voltou a rodar! Ele a pegou do chão e antes que pudesse dizer palavras de conforto ela se pôs a chorar. Perninhas batendo a procura do chão, soluços agudos e gritos estridentes. Olhos nervosos procuravam colo, um lugar seguro. Senti-me capaz e fui sem pensar ’salvar a menininha do monstro do lago Ness.’

     Guilhermina, era esse o seu nome. Enrolou-se em meu pescoço e não olhava para tras. Sentei na cadeira e percebi que aos poucos cessaram os soluços. Quando enfim se sentiu protegida, soltou meu pescoço e me disse baixinho, como quem confessa uma fraqueza “eu tenho medo de palhaço.” E poucos segundos depois, desviando de mim seu olhar para a bandeja de brigadeiro, foi correndo de encontro aos pedacinhos de doçura.

     Passava longe dele mais contida do que antes, mas de certa forma disposta a enfrentar o monstro, correr pelos balões e comer docinhos. Aquilo não me saia da cabeça. Uma criança, ser tão fragil me parecia tão segura e confiante. Livre agora, acuada depois e reerguida continuamente. Era tudo intenso e efêmero. Não hesitava muito e nem pensava em consequência. Mas porque o palhaço se era ele aquela figura colorida desengonçada, de sorriso largo disposta a arrancar-lhe a gargalhada contida? Nunca soube, mas começei a entender.

     Minha luz dispersa se acendeu em um medo de criança. Sempre vi o palhaço como um vendedor de sonhos. Acharia eu que uma pessoa qualquer fosse mais assustadora, mas ela via com clarevidência, via além. A figura humana é cheia de defeitos, comum. Ele, com sua mascara de expressão feliz oculta sua face do mal humana; é imprevisivel, dissimulado. De tanto reprimir seus defeitos, provoca o temor da sua explosão humana. Vende sonhos, mas a noite também traz pesadelos. Nunca se sabe como sera o pesadelo da figura feliz. Nem quando chegara, mas existe o reprimido lado que faz infeliz.

     Venda seus sonhos, exponha suas fraquezas, faz-te humano e feliz. Essa é a condição da existência. Exista!

                                                                               Tassiana Frank

                               João

     Ja era dia e João não sabia quem era, nem o que fazia. Quando saiu de casa aos dezenove anos, sua mãe lhe pedira para ficar, seu pai lhe mandara embora. Ele nunca foi do tipo correto porém, não era do tipo errado. Era uma espécie de descompromissado. Um perdido na vida.

     Seu pai queria que fizesse direito, sua mãe medicina e ele fez economia. Contudo, não aprendeu a ser econômico, se não fosse pela mesada gentilmente depositada por sua mãe, não passaria o mês ou quem sabe a vida. Acordava as onze, almoçava as quatro, dava uma volta de carro as seis, chegava as onze e dormia as cinco. As vezes acompanhado, as vezes embriagado.

     Falava pelos cotovelos, não escutava ninguém. Não trabalhava, não estudava, não fazia nada, em tempo integral. Foi por isso que seu pai lhe mandou embora e foi por isso que cortou naquele dia a mesada depositada pela esposa. Aos trinta e dois, não era possivel que não pudesse se sustentar, ou pelo menos tentar.

     Não havia sido informado, exceto pelo fato de seu cartão ter sido recusado no posto de gasolina. Foi ligar para a mãe, mas a conta do celular também não havia sido paga. O aluguel estava atrasado, e por baixo da porta uma carta chegou. Havia um endereço e um horario com um dizer: “é bom você estar la.” A letra era de seu pai, isso ele sabia. Não quis contrariar, afinal ele não estava em posição de discutir nada e precisava de dinheiro

     Quarto andar, primeira a esquerda, barulho de salto, corredores lotados, telefones tocando, calor insuportavel e cheiro de produto de limpeza. Escritorio de contabilidade. Pilhas de papéis a sua frente e computadores abarrotados de numeros lhe indicavam o destino das suas horas vazias.

     Ele se sentou e uma mulher baixinha e mal-humorada lhe explicava freneticamente o serviço. Havia um computador, uma caneta e um bloco de anotações. Recebia uma projeto, calculava os possiveis lucros ou perdas. As vezes um cliente ligava pra fazer a declaração de renda, ou problemas com o imposto, cnpj ou cpf. Estava gostando dos numeros.

     Se sentia bem, e com o tempo foi pegando mais agilidade nos calculos. Mas o salario que era pouco, pra ele era muito pouco e demorava a chegar. Não sustentava suas baladas, sua gasolina e o Red Label do fim de semana. Sua mãe não mandava mais a mesada e a relação custo-beneficio estava ficando insustentavel. Seu celular tocou e como estava no escritorio, foi atender no banheiro.

     Era um homem de voz imponente que lhe informou sem delongas o seu objetivo e disse que pagava bem. João suava frio, as mãos tremiam e ele quis saber do que se tratava, pelo menos. Mas so escutava: “pago bem, pago bem”. Não devia ser nada demais, e sonegar umas coisinhas ali, não é um bicho de sete cabeças. Era rapido e pagava bem… ele aceitou.

     Depois de feito o primeiro, veio o segundo e o terceiro. Ninguém desconfiava, o dinheiro estava fluindo, trocou de carro e reformou o apê. Tudo ia bem. Tinha pouco trabalho e ganhava bastante dinheiro. Seus pais estavam felizes e ele um buon vivant. O que mais podia querer?

     Sabado a noite, e como era de costume passou no morro pra pegar o teco da noite. “Pra você não tem aqui não, o patrão mandô tu subi.” E ele escoltado foi subindo as vielas da favela. Com um trabuco encostado na nuca, congelado por dentro não sabia o que fazer. Não devia nada na boca, não entendia a intimação. So sentiu o sangue gelar a espinha e o medo se apoderar de sua alma como nunca antes havia sentido.

     O cara do trabuco lhe indicou uma porta e o homem la dentro chamou seu nome. Como sabia seu nome? João se sentou rapidamente e o cara objetivamente começou a falar. Aquela voz, ele conhecia aquela voz e aquela objetividade. Era o seu patrão de servicinhos escusos! Agora fazia sentido, estava tão focado na grana que nem se deu conta de como aquele homem sabia seu nome, seu celular, seu trabalho. Como conhecia sua vida. Ele sonegava pro trafico de drogas, quem sabe até de armas.

     O homem traficante dono-da-boca seu patrão, tinha um novo pedido, alta recompensa e foi logo alegando que ele não podia negar. Que conhecia sua casa, seus pais, seu trabalho. Sabia desde o seu rg até a senha da conta bancaria. Era um serviço mais complicado, mas nada que ele não conseguisse fazer. Precisava desembarcar uns produtos na Gringa. Precisava entrar com trinta e duas mulheres que ele tinha vendido pros gringos.

     Ja era noite. E agora, João sabia quem era e o que fazia…

                                                                  Tassiana Frank

                                                             Cotidiano incomum

     Manchete do Jornal (dia seguinte):

     Entrada de emergência no hospital: Vitima de desabamento resgatada das escoriações gravida, é encontrada quase sem sinais vitais apos quarenta e oito horas do acidente.

    

     Dia nada comum no hospital geral da cidade. As sirenes soavam com desespero e as mas noticias chegavam com uma frequência cada vez maior.

     — O prédio da prefeitura desabou, todos os internos agora na ambulância! – alguém gritou.

     Todos se apressavam. Kits, gases, casacos, mantas e curativos. Tudo que pudesse ser util, tudo que pudessse salvar uma vida. Mas e o Renato? Cadê ele?

     Renato, era o tipico bonitinho de vinte e poucos anos. Tinha um cérebro ofuscado por sua canalhice, suas vitimas eram sempre escolhidas a dedo (afinal, quando elas se recuperassem…) e possuia o dom da fala. Conseguia aplicar uma injeção, fazer uma sutura ou te dar um beijo sem o seu consentimento. Mas onde ele estava? Provavelmente no almoxarifado com alguma enfermeira, médica ou paciente… Nada incomum. Todo mundo sabia o que virara o almoxarifado e todo mundo sabia quem estava sempre la.

     As sirenes ainda ecoavam e Joana furiosa, foi direta. Abriu a porta mandou que ele se vestisse e que entrasse naquela ambulância. Sairam. Todos em rumo a destruida sede da prefeitura. Renato envergonhado olhava para Joana, e ela se recusava a olhar para ele. Sentiam medo. Medo do que veriam, medo de não poder ajudar ninguém, medo de chegar. Queriam ficar ali, imoveis. Mas a ambulância parou. Ouviam-se gritos e eles desejaram que a porta não abrisse.

     Quando a porta se abriu, uma névoa de fumaça. Bombeiros com mangueiras em punho, pessoas corriam sem destino, crianças choravam. Via-se sangue no chão, gente desmaiada soterrada por escombros, um homem se contorcia sob um carro amassado e uma mulher em prantos, segurava a sua mão.

     Naquele barulho infernal, helicopteros circulando no ar, o pânico cessou. De repente o silêncio se instalou dentro de cada um. Eram apenas internos, não eram médicos ainda. Seriam capazes de aguentar aquilo? Estariam preparados?

     Estavam imoveis, e Joana de subito se abaixou junto ao homem que se contorcia. O choque passou. Cada um corria para um lado, procuravam ajudar quem quer que fosse.

     Curativos, remédios, hipotermia, queimaduras, fraturas. Bombeiros ainda procuravam sobreviventes. E os escombros continuavam a cair. Começou a chover e as buscas estavam sendo interrompidas. Pessoas removidas, os atendimentos locais não surtiam mais efeito e havia risco de novos desabamentos. Renato corria pelos escombros em direção a uma outra ambulância a fim de conseguir mais medicamentos e escutou um sussurro.

     Era quase inaudivel, mas ele escutou. Embaixo de blocos de cimento, colunas de ferro e uma placa de madeira estava uma mulher. Ele arrastou o bloco, pode ver seus olhos (era a unica coisa que ela podia mover) e constatou, estava viva.

     Pediu ajuda, começou desesperadamente a empurrar a placa e a chutar a barra de ferro. Finalmente conseguiram tirar ela de la. Estava viva, estava gravida! Levaram-na até a ambulância que partiu direto para o hospital.

     Mexia os olhos com desespero querendo saber de seu bebê. Estava toda inchada, seu rosto deformado e era impossivel identifica-la pela aparência de antes do acontecido. Foi sedada, fizeram os exames e a levaram pro centro cirurgico. “Essa é uma cirurgia importante Renato, preciso de alguém com mais experiência. Não posso deixar você participar” disse o cirurgião sumindo pelo corredor. Como não podia se havia salvado a sua vida? E o bebê? Ele chorava com raiva, com indgnação e sem se preocupar com as consequências, entrou apenas para assistir a cirurgia, para segurar a sua mão.

     Ela foi estabilizada, e o bebê retirado com segurança. Por ser prematuro e estar ainda tão magro, foi direto a incubadora onde ficou por mais um mês. Ela, a qual não se sabia feição ou nome ficaria ali também por mais algum tempo. O inchaço precisava ceder, necessitava de enxerto, correções plasticas e implantar alguns pinos. Foram dias dificeis e Renato estava ali, dando-lhe sopa no canudinho, fazia questão de cuidar da sua paciente. Estava ocupado demais para as visitas ao almoxarifado.

     Era o primeiro a chegar, o ultimo a sair. Chegou até a dormir algumas noites no hospital. Ja era mais do que cuidado médico, mais que atenção especial. Estava eternamente ligado aquela desconhecida. Não sabia quem era e nem como era, mas possuia lindos olhos azuis…

                                                                    Tassiana Frank

                                Nos bastidores da vida

 

     Fila do banco. Uma senhora inicia um dialogo.

     Era uma senhora de uns setenta anos, modestamente vestida. Aparentemente bem e esperta, com uma sacola contendo um pacote de rosquinhas em sua mão. Ela pergunta as horas para a mulher atras dela, numa tentativa de iniciar uma conversa. A mulher devia ter uns quarenta e cinco anos, salto alto, joias reluzentes e aparência de insatisfação. Aparenta não suportar estar ali. Se esquiva das pessoas que passam por ela esperando não ser tocada como quem evita o contagio de uma doença.

     Ela responde, “são três horas” e a senhora se vira para a frente. Numa segunda tentativa, ela fita a janela. “Sol forte. Mas aqui dentro faz um frio né?” A mulher a olha com desdém. “é o ar.” E a velhinha insiste, “eu não gosto. Todo mundo respirando o mesmo. O ar não circula. Depois as pessoas não sabem porque gripam. Eu ando previnida, quer ver…” e antes que ela pudesse terminar a mulher deu um salto pra tras, abriu a bolsa e pegou o celular. A velhinha so queria mostrar o spray de mel e propolis, faz bem a garganta.

     Na porta do banco. Um homem entra apressado.

     Um homem novo, uns trinta anos. Casaco de capuz. Dificil visualizar seu rosto. Ele entra apressado, parece relutar em entrar. Da um passo a frente, dois para tras. Esta no canto da sala. Olha para o vigilante, lança olhares aflitos por todo o banco como se estivesse procurando por alguém. De repente para. Pensa um pouco, balança as mãos. Parece ter encontrado a pessoa. E começa a caminhar, seguro.

     Fila do banco. A senhora olha para frente, e a mulher fala ao celular.

     A senhora havia entendido o recado. Virou-se definitivamente para frente, cabisbaixa, sem nada falar. A mulher bradava ao celular “O carro esta no estacionamento. E eu? Você não vai acreditar. Tô no banco. Precisava efetuar um pagamento e não tinha ninguém pra fazer isso por mim. Pois é, esse lugar lotado. Ainda perdi o horario no salão…”

     Dentro do banco. O homem para.

     O homem de capuz para ao lado da mulher. Da-lhe um abraço como se a conhecesse, encosta por debaixo do casaco a arma em sua cintura “Isso aqui é um assalto dona, desliga o telefone. Põe as joia tudo na bolsa, o relogio, o celular e o oculos também. Qual é o carro? De boa cola no estacionamento? Então, vô deixa a dona agora. Mas vai fica de bico quieto porque eu num tô afim de treta pro meu lado valeu? Tô vazando.” E saiu como entrou, apressado.

     Fila do banco. A mulher tremendo, cutuca a velhinha.

     A mulher tremia. Cutucou a velhinha que prontamente olhou para tras. ” Me ajuda” disse num sussuro. E ao ver a face palida deu por falta os adereços que adornavam aquela mulher minutos atras. E entendeu o que havia acontecido. Pegou-a pelo braço, saiu da fila e sentou-a em uma cadeira. Voltou com um copo de agua. ” Não tenho muito filha. Não tenho celular e ainda não peguei o pagamento. Mas tome, pelo menos não volta pra casa a pé. De coração.” E estendendo a mão, entregou-lhe um vale-transporte.

     O esgoto fede. Mas tem um cheiro adocicado diante da podridão do mundo.

                                                                           Tassiana Frank