Pra respirar

     De leve, ele tocou meus cabelos. Disse “você está diferente” e eu nada respondi. Perguntou se poderia se sentar ao meu lado e eu novamente, nada respondi. Então ele se sentou. Ficou calado durante algum tempo, e eu também. Depois, de súbito virou-se para mim. As mãos para o alto, a boca aberta tentava gesticular, mas ele calou, e eu fingi não ver aquilo. Ele continuou a me olhar. Parecia ter medo de dizer alguma coisa errada, parecia saber que fez tudo errado. E eu ali calada, sabia que tudo tinha dado errado, mas mal podia respirar, quem dirá mover-me dali.

     Novamente ele disse, “você esta diferente” e eu então sorri. Como uma criança, eu sorri. Com a inocência de quem acredita, eu sorri. E ele com uma fagulha de esperança, continuou tentando recobrar o ar que tanto me faltou. Mas como uma mulher calei-me. Com a descrença de quem conhece o outro, calei-me e nada passei a escutar.

     Pude perceber, que ele me olhava confuso, com certo desespero. Falava aos berros, como se soubesse que aquilo a nada levara. E sem me conter, sorri despercebidamente. Ele levantou. Olhou em meus olhos, me segurou pelos braços e começou a me sacudir.  Depois me abraçou e como quem gosta, disse “Só te peço pra me escutar, pelo menos dessa vez.” “Olha pra mim, eu ainda te amo.”

     E ao ouvir isso, ainda entre seus braços eu realmente sorri. Sorri com alívio. Com o alívio de quem depois de tanto tempo, conseguiu respirar. E pela primeira e última vez, passei-lhe a mão nos cabelos e disse “eu cresci”.

 

                                                                     Tassiana Frank

Tempos de nada

      

 

Que saudade dos tempos de nada!

 

Dormir acordada sonhando com o mundo

 

E acordar inspirada!

 

 

 

Dia cheio, correria

 

Encontros na rua

 

Desencontros na vida…

 

Mas ela continua (e eu te vejo outro dia)!

 

 

 

Estou feliz, tranqüila

 

Volto a ser ansiosa e a sonhar com aquele dia

 

Cheio, corrido, feliz

 

Que acaba em um travesseiro feito de céu!

 

 

 

E eu durmo sorrindo

 

Porque vou acordar

 

E ver você.

 

 

 

Que saudade dos tempos de nada!

 

 

 

                                                                Tassiana Frank

 

Num vai incachaça?

      Eu disse “não dou”

     Ocê dise “dá!”

     Rancô da minha mão,

     me deu puxão,

     me mando pastá!

 

     Besta zabiranga!

     Roubo minh’aliança

     Pra se incachaçá!

 

     Chegô nu buteco

     Vendeu um peixe e dois marreco

     Pra conta acertá.

     Foi nu homi du bicho

     Vendeu meu mimo de casório

     Por um conto e duas ficha de bilha!

 

     Filho duma parrera dus inferno!

     Gasto o conto incheno a cara no bar!

     Veio pra casa cambaleando que nem bambolê

     Cum meia pinga imbaxo du suvaco

     “- Dromi na rua disgraçado!”

 

     Drumiu im riba do teiado

     Acordo c’os calo tudo judiado

     Veio bateno na porta sussurrando “ô muié”

     “tú trocô minh’aliança por um migué

     Agora come c’os pato se quisé

     E vê se caminhão move á pinga

     Pru que num tem gasolina

     Ocê vai tê que i á pé!”

 

     O tranquera ando inté o sol rachá!

     Ando tanto que teve insolação, disintiria e vomitação

     e eu qui tivi que cuidá!

    Puis pra drumi c’os pato

     I ele ficô traumatizado

     De tanto escutá “quá” e vê eles cagá”

     I é bom que eu ripito:

     “Num vai incachaçá?”

 

                                                     Tassiana Frank

Ele e Ela

            

     Ele sempre foi cabeça dura. Ela sempre foi orgulhosa. Ele brigava com ela hoje, ela não lhe ligava nunca e eles ficavam sem se ver uma semana.

     Ele gostava de dormir de lençol e ela de edredom. No começo, ela cedia. Dizia que não se importava, que estava fazendo calor. Ele cedia também, dizia que de madrugada fazia um pouco de frio e eles acabavam num dilema de gentileza.

     Ele gostava de jazz americano, antigo. Billie Holiday, Oscar Peterson, Ray Charles. Ela também. Porém, preferia algo contemporâneo como Zap Mamma, Jazzanova. Ele lhe deu um cd que achou com muita dificuldade num site na internet. Zap Mamma não é fácil encontrar por aí! E ela lhe comprou uns vinis que achou num brechó escuro e abafado na esquina da avenida mais barulhenta com a rua mais deserta da cidade. Ambos acharam que valeu o esforço. Mas ele não possuía uma vitrola então, escutava seus discos somente quando visitava a casa de seus pais. E devido novamente à gentileza e a polidez, o gosto dela prevaleceu.

     Ele gostava de tomar um bom vinho e ver um bom filme no sábado á noite. Ela gostava de uma boa cerveja em um bar bem frequentado. Essa era fácil! No verão bar, no inverno filme. Mas com a praticidade veio a rotina causando descontentamento mútuo. Contudo, ele era cabeça dura demais para abrir mão de certas coisas e ela orgulhosa demais para admitir certos erros.

     Ele teve que viajar por duas semanas e ela ficou aqui. Ele sentiu vontade de ir e foi sem se importar que ela sentia sua falta em casa, sozinha. Quando voltou só disse que foi bom, pois ela não perguntou nada sobre sua viagem. Ela não disse que sentiu falta dele, pois ele não disse se sentiu falta dela.

     Ele dormia de lençol na sua cama, ela de edredom na dela. Ele escutava Billie Holiday no seu ipod e ela Zap Mamma no dela. Ele via um filme e tomava um vinho em sua casa, ela ia á um bar tomar sua cerveja com uma amiga. Ele viajava, ela ficava aqui. Eles se falavam de vez em quando pelo telefone ou pela internet. Ele não ia se esforçar para mudar aquela situação, ela não pediria para ele mudar.

     Ele decidiu ir a um bar certa vez, ela decidiu ver um filme outro dia. Ele se viu escutando Jazzanova e ela comprou o documentário do Oscar Peterson. Ele dormiu de edredom e ela de lençol… Seria saudade? Eles não souberam.

Ele era cabeça dura demais para confessar e ela orgulhosa demais pra admitir.

 

 

                                               Tassiana Frank

     Lamento Operário

 

Te dei a carne, tu fez ferida

Te dei meu suor, um nome e uma família

Te pus um filho, te fiz mulher

Agora vem dizer que não me ama, que não me quer.

 

Te dei perfume e laço de fita

Te tirei da rua, ninguém mais te chama de puta!

Te dei um lar, mas você não sabe como é

Vive sorrindo e rebolando, me chamando de bobo pra quem quiser.

 

Na obra desfila e diz pro Negão:

“meu homem rala o dia inteiro

E ainda me dá de colher!

Mas eu gosto é de tapa na cara

E de um vadio me chamando de mulher!”

 

Tu me feristes menina mulher!

Seu corpo não diz,

mas mostra quem você é

marcas de desejo e vazio na alma.

 

Mas tua cegueira é impossível de curar!

Te mostrei meu amor e você não enxergou

Preferiu ser só mais uma sem ter á quem amar.

 

                                               Tassiana Frank

          Flores, um vão e um coração

 

     Eu tinha um discurso. Era apenas um papel branco. No começo, desenhei flores no canto direito acima. Flores no canto esquerdo em baixo. Eu tinha muito a dizer mas simplesmente, não conseguia escrever. Aos poucos, me lembrei de você. Da noite em que choveu enquanto a gente conversava, sentados na calçada úmida. (Não importava). Do dia em que eu acordei sem saber que horas eram, mas sabendo que era tarde o suficiente para eu estar ali. (Valeu a pena). Da madrugada em que não falamos nada porque os olhares não precisavam de complemento. (Eu sempre me lembro). Da hora em que descobri que a sua mordida doía e que ia me deixar marcas. (Eu esperei que fossem constantes). Do minuto em que eu disse que estava com frio e você me abraçou. Foi quando tudo começou.

     Depois daquilo, eu sabia que seria início de um desamor. Você me olhou e eu senti medo. De você, de mim, daquilo tudo. Do toque dos seus dedos, das palavras não ditas. Da inclinação do corpo, da sua ausência, de te perder. Não sabia como era a sensação de amar e pra ser sincera, ainda não sei se sei. Só sei que sorri, que chorei e que por algum motivo estranho (deve ser resquício do tal de amor), ainda penso em você. Ainda relembro você. Perdi minha alma nesse tortuoso caminho. Recuperei um pedacinho mas gosto de pensar que ela esta aqui, inteira como quando a encontrei. Em meio as lembranças, esqueci o discurso e continuei sem escrever. Senti sua falta e me lembrei que ás vezes, não sentir é a única forma de sobreviver. Por fim, o meu papel não era mais branco. Ele possuía flores em um lado, flores no outro. Mas um vão branco, vazio dominava o papel. Eu tinha um discurso, agora não tenho mais…

 

                                                       Tassiana Frank

 

De tanto pensar, esqueci de dizer.

Segurei palavras, podei certas rimas

Para (ou não), atingir você.

 

Versos rasos, palavras simples

Que uso agora para dizer-lhe

Não-sei-o-que…

 

Que a dor que dói-me o peito

E a alegria que me acalenta,

Vem do seu sorriso que corta e alegra

A face que lhe mostro, o coração que lhe dei.

 

Porém anseio um dia,

Lhe implorar minh’alma que não lhe dei.

Mas que por sua falta se foi!

Por sua falta me moveu!

Por sua falta me mostrou,

A falta que a falta dela me fez.

 

                                            Tassiana Frank