Poucas palavras

 

     Joaquim era um homem de poucas palavras. Idealista fanatico assim como o pai, havia acabado de cursar Sociologia. Seu pai lhe batizaria Vladimir, assim como Lênim. Mas por sorte, ele teve de viajar no ultimo mês da gestação e não estava presente na hora do parto. Fingindo esquecer-se de tal desejo, sua mãe escolheu Joaquim, como seu avô. Homem decidido e de personalidade forte.

     Havia se mudado para o Rio para fazer a faculdade, mas talvez tivesse que voltar para casa. O estagio havia acabado, e ele não havia conseguido nem um trabalho em sua area. Mas como ia dizer ao seu pai que lhe depositara todos seus sonhos e orgulho, que iria parar por ali voltar para casa e trabalhar na fazenda? Quem sabe talvez, lecionar na catequese local… Ele não podia. Suas contas estavam atrasadas, podiam interromper o fornecimento de energia e cortar-lhe o gas. O orçamento de sua familia era apertado e ele não queria importuna-los com o seu fracasso.

     Ele fotografava muito bem. Possuia uma Laika desde seus quatorze anos e além de sociologo essa era a unica coisa que ele sabia fazer. Mas sua vasta experiência, se resumia a registrar momentos em familia e a beleza das pequenas coisas que lhe eram importantes. Ninguém daria emprego a uma pessoa sem experiência.

     Essa era a unica idéia que possuia e depois de tantas recusas, uma a mais ou a menos, não faria diferença. Pegou sua motocicleta e pôs se a rodar. Passou o dia inteiro procurando as sedes dos jornais, foi do norte ao sul da cidade. Do diario de Noticias ao Correio da Manhã. Ja eram cinco e meia da tarde e ele não havia conseguido nada. Não havia almoçado e seu estômago ja dava sinais de alerta. Era então, hora de ir pra casa.

     Passando então pela Dezenove de Fevereiro, Joaquim viu um letreiro que dizia precisar de fotografo experimental e que pagava um modesto salario. Ele pensava no quão modesto seria esse salario ja que precisava urgentemente de acertar suas contas. Mas havia uma coisa que o incomodava muito. O letreiro era da revista Foco Feminino, e fotografar coleções de biquini, não era extamente o que ele queria fazer. Imagina o que diriam se soubessem que Joaquim o sociologo, era agora capacho de mulherzinha tirador de foto de biquini? Mas a necessidade faz a hora e ele não podia escolher. Resolveu então subir as escadas. O primeiro passo era conseguir o emprego. Depois, ele pensaria como agir.

     Ao chegar ao primeiro andar, sentiu um turbilhão de cheiros que não soube identificar. Aquela mistura de perfumes formava um doce aroma que impregnava todo o andar. So haviam funcionarias, e uma delas muito sorridente, lhe disse para virar a segunda a esquerda e procurar Ameli pois era ela quem pedira o serviço.

     Se dirigiu então ao local, e antes que pudesse bater a porta ela se abriu. E uma mulher foi saindo sem nem lhe dar atenção. Ele ficou parado ali na porta enquanto ela foi até a redação murmurou alguma coisa com a sorridente e voltou. Ao entrar novamente na sala, pegou sua bolsa seu casaco e retornou a saida.

     — São seis horas e o horario do expediente ja encerrou. Mas eu estou faminta, então se quiser saber sobre o emprego, venha comigo. Qual é o seu nome?

     Ele respondeu e a seguiu. Eles atravessaram a rua e ela entrou em um botequim frequentado somente por homens. Acenou pro garçom com intimidade, que lhe puxou a cadeira e perguntou se ela queria o de sempre. Ela abriu um sorriso consentiu com a cabeça e com as mãos indicou que queria dois. Voltou trazendo uma cerveja e dois copos.

     Joaquim não acreditava. Estava atordoado com a quantidade de informações que vinha observando daquela curiosa mulher. Enquanto ela falava, ele estava com os olhos parados, vidrado nela. Não era comum mulheres com esse tipo de comportamento na década de sessenta. Usava um vestido azul claro comportado, mas com um cinto demarcando a cintura, sapatos de salto baixo combinando com o cinto, uma bolsa enorme lotada e um livro nas mãos. De repente, ele percebeu que ela abrira o livro e citava Fenomelogia das Almas de Hegel.

     De poucas palavras, passou para nenhuma. Ficou imovél e concordou com os pros e contras da experiência como fotografo. Aquela altura dos acontecimentos, concordaria com qualquer coisa… Ao longo da noite, ele começou a perceber o quão interessante poderia ser trabalhar com o ‘foco feminino’ e que nem so de cores de esmalte era feita a revista.

     O tempo foi passando e a convivência foi aumentando. Estavam trabalhando juntos ha um mês e não se desgrudavam mais. Era uma matéria aqui, outra ali, um furo, uma entrevista ou nada. Ele sempre arrumava um pretexto para estar com ela e ela também correspondia da mesma forma. Apesar de ser muito comunicativa, não era o seu forte lidar com sentimentos de modo que ambos sabiam o que estava acontecendo mas não tocavam no assunto.

     Ambos gostavam de filosofia, preferiam Kubrick a Hitchcock, odiavam a ditadura, eram fãs do tropalismo, trocavam champagne por vinho, riam juntos e se olhavam com uma intensidade indescritivel. Um olhar profundamente sonoro que dispensava qualquer apresentação.

     Descobriram ali que nada precisava ser dito. Nenhuma palavra seria necessaria. Elas vieram naturalmente quando a necessidade delas ja não existia. Apenas para contemplar o sentimento que havia nascido de um desejo, de um olhar. As vezes as grandes façanhas, vem das pequenas oportunidades. As vezes o mundo quer lhe dizer alguma coisa inaudivel. Escute. 

                                                                                                                                                                 Tassiana Frank

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

5 Respostas para “

  1. Que coincidência fantástica! Sem palavras, poucas palavras… Palavras não-ditas, palavras que não precisam ser ditas… E o mundo que está pronto para dizer coisas inaudíveis, basta que a gente queira escutar. Maravilhoso!

  2. Marcelo Frank

    Gostei muito do texto. Parabéns! A cada texto você demonstra o gosto pela literatura.

  3. marcinha

    É… é exatamente esse “encontro” que buscamos, alguém que dispensa palavras e guarda a presença! Vc soube traduzir mto bem esse sentimento. Adorei! Mas vai ser preciso acender mtos incensos vermelhos!!!!… Um texto que demonstra sensibilidade e esperança. Gostei dessa surpresa!!!

  4. Gabi

    De “grandão” para “tamanho ideal”. Essa ideia de nunca desistir, mesmo em situações muito criticas, é bacana porque acaba que daí vem os encontros inesperados e os novos rumos. Tassi você é ótima!

  5. Hud

    Engraçado… Comentava sobre a desnecessidade de palavras ontem no GD… porque a língua não tem necesidade quando é o coração que fala… Parabéns.

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