Bouquet

     Era quarta-feira véspera de feriado e Catarina ia viajar. Estava arrumando sua mala sistematicamente como sempre fazia quando a campainha tocou. Era um entregador de floricultura com um bouquet lindo e enorme nas mãos. Lirios e Orquideas perfumadas em tons frios fazendo um cuidadoso degradê perfeito para o inverno. Ela ficou estasiada. Não podia acretidar. Depois de cinco anos de casamento, Igor havia lhe mandado flores. Ela sempre esperou que ele fizesse isso. Mas romântico não era nem de perto o seu estilo… Então abriu a carteira e deu dez reais de gorjeta para o entregador que agradeceu e disse:

     –Obrigado. A senhora me ajudou e muito. A floricultura não abrira mais essa semana e o cliente fazia questão da entrega ainda hoje. Bom feriado.

     Catarina em seu estado de êxtase, não havia prestado atenção no que o entregador dissera. As flores não eram pra ela, mas pra sua vizinha Cecilia. Não havia ninguém la então ele deixou em seus cuidados enquanto a vizinha não voltava. Apos fechar a porta, ainda com o bouquet na mão, Catarina processou a informação. Seu marido não havia tido um rompante carinhoso, ela havia perdido dez reais e tinha de esperar Cecilia voltar. Justo Cecilia.

     Igor saiu do banho e caminhando para o quarto, viu Catarina em pé pensativa com aquele volumoso presente. E ele pensou: ” Quem mandou? E porque? Não é aniversario dela, ela não foi promovida e nem é o dia internacional da mulher… Gravida! Ela so pode estar gravida. Esta estranha ja ha alguns dias, estressada. Cismou de ir pra casa da mãe no feriado e devorou uma caixa de trufas em cinco minutos. Deve ter contado pra Cis… E ela sabendo da viagem mandou antes que a gente fosse. Gravida? Filhos? Agora? Isso não estava nos meus planos, não mesmo. E como ela não me contou? Se eu vou ser o pai, eu deveria ser o primeiro a saber! Acho melhor fingir que eu não sei de nada. Vai que ela quer fazer uma surpresa, e eu estrago tudo?” Fingiu que não viu nada e foi correndo pro quarto. Trocou de roupa e não falou mais no assunto.

     Mas ja estava pensando no nome, na cor do quarto, na felicidade da sua mãe e que seria Flamenguista, assim como o pai. Não era o momento ideal, mas seria recebido com muito amor. Ja estava se acostumando com a idéia. Até trocou de blusa. Agora era um pai de familia, e a blusa azul lhe parecia mais séria. Enquanto trocava de roupa, um sorriso lhe preencheu o rosto.

 

     Cecilia. Quem havia lhe mandado aquele bouquet? Seria apenas um delicado gesto de Juca (seu marido) como ela queria que Igor tivesse feito pra ela? O que dizia o cartão? Essas perguntas latejavam na cabeça fervilhante de Catarina e ela num impulso, abriu o cartão e começou a ler:

     “Linda Cecilia,

        Espero um dia novamente poder falar-lhe tudo o que ficou guardado durante todos esses anos. Nosso reencontro de ontem embora tenha sido o marco do fim, fez-me ver o quão importante você é e sempre sera para mim. Nascemos pré-dispostos a nos amarmos e assim sera até o fim. Espero realmente que reconsidere o que lhe digo agora enquanto esqueço as magoas e abro meu coração. 

     ‘Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir.
     Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
     e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
     Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades
     para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana.
     E esperança suficiente para fazê-la feliz.’ (Clarice Lispector)

            Quando retornar, me procure. Estarei lhe esperando. Sempre.

                 Com amor, Tomas. “

      Havia lido algo que não lhe pertencia. Não fora endereçado a ela e aquilo era invasão de privacidade. Estava se sentindo a pior pessoa do mundo. Fechou o envelope e arrumou o bouquet. Saiu e colocou-o em cima do tapete da porta de Cecilia. Voltou, terminou de arrumar a mala com seu jeito sistematico e não contou o ocorrido a Igor. Ele a olhava pensando na suposta gravidez e ela retribuia com um olhar cheio de indeferença assim como seu casamento. Ambos viajavam em silêncio, mas uma pergunta ainda ecoava em Catarina. Quem era Tomas? Se o marido de Cecilia era Juca, Tomas seria um amante?  

Tassiana Frank

(continua…)

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Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

4 Respostas para “

  1. (Voz de locutor) Quem é Tomas? O que Catarina vai dizer a Cecília? Igor vai descobrir que Catarina não está grávida? (Sobe som – Quinta Sinfonia de Beethoven)

    Vou ser obrigada a voltar aqui semana que vem, Tassi! (Como se já não fosse fazer isso, né? rsrsrsrs…)

  2. Marcelo Frank

    Muito bom Tassiana. Gostei do estilo. Parabéns! Aguardo ansioso a continuidade do texto.

  3. Dayse

    AHHH que lindo!
    catarina, o nome da minha filha 🙂
    hsuhsushu

    tassi adorei e estou esperando ansiosamente a continuação
    tá escrevendo bem hein menina!

    p.s.: QUEM É TOMAS?

  4. andrearomao

    Coitada da Cecília! Coitado do Juca!
    Afinal pra quem é o bouquet?
    Não sei quem é Tomas, mas ele um bocó…

    Adorei amiga. Dá um final feliz pra Catarina?

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