( Continuação de Bouquet)

 

     Choque. Tomas. Flores. Cartão. Tomas. Choque. Tomas havia sido o seu mehor amigo e também seu primeiro namorado. Eram vizinhos na sua cidade natal no interior, mas as coisas não acabaram bem entre eles. Ela decidiu ir para a capital, estudar, ir a grandes concertos de musica e apertar a mão do presidente. Ele se contentava em construir uma casinha na beira do lago, trabalhar como revisor de textos e tomar cha na varanda. As diferenças que antes faziam graça, tornaram impossivel a convivência. Haviam perdido o respeito. Se estapeavam, diziam coisas horriveis mas se beijavam apaixonadamente. Mas por orgulho, de ambas as partes, nada disseram. Ela entrou no carro, ele ficou vendo da janela e não se encontraram mais. Exceto por ontem.

     Cecilia estava saindo do escritorio para amoçar como sempre, no restaurante do outro lado da rua. Ela estava entrando e ele saindo. Passaram um pelo outro, pararam. Se entreolharam, mas novamente, nada falaram. E agora ele estava ali. Como se soubesse que ela precisava dele, precisava dizer e ouvir tudo que havia ficado em silêncio até agora. Ela não perderia nem um segundo. Pegou as chaves do carro, um casaco, seu velho diario e foi. Foi ao encontro do passado ou talvez encontrar o futuro.

 

     Catarina e Igor voltaram para casa. Vieram conversando o caminho todo, exceto pelas longas e mutuas admirações mudas que faziam agora, jorrar contentamento em estar junto. Não se lembrava mais de Juca, Cecilia ou Tomas. Tinha certeza, era feliz. E isso fazia toda a diferença.

     Ao chegar no corredor, encontrou o bouquet na porta. Tocou a campainha de Cecilia para explicar o mal entendido. Juca abriu a porta, sonolento. Ainda de roupa, todo amassado e meio embriagado do dia anterior.

     — Juca, desculpa te acordar. Mas é que eu estou precisando falar com a Cecilia, ela esta?

     — Eu não sei Catarina, pra lhe dizer a verdade, acho que ela nem dormiu em casa. Se é que nos ainda temos…

     –E porque o bouquet…

     –Me desculpa, mas se é sobre essas flores, acho melhor nem começar. Com licença.

     E dizendo isso, saiu e bateu a porta. Ela não entendeu nada. Ou melhor, tinha idéia do que podia ser e então agradeceu por ele não ter deixado-a falar. Ela deixou as flores no tapete e entrou em casa. Para a sua vida. A sua felicidade. O seu marido.

 

     Juca foi andando, caminhando pelas ruas ainda meio atordoado com os ultimos acontecimentos. Desejava não ter dito aquilo. Não daquela maneira, mas de certa forma, aquilo estava engasgado e lhe fazia mal. Perdê-la, ja não era uma hipotese, mas uma realidade. E então ele pensou. Se estava sendo egoista, se não havia feito uma tempestade num copo d’agua ou se na verdade, inveja era o que ele havia sentido. Parou numa padaria e pediu um suco de laranja. Ligou umas cinco vezes, mas o celular de Cecilia so dava desligado… Onde sera que ela estava?

     Longe. Havia chegado. O cheiro de terra molhada e o orvalho da manhã continuavam do mesmo jeito. Dona Zefa ainda fazia torta de banana como ninguém e o cheiro estava chegando, cada vez mais perto. Ela sentiu medo. Medo de não ser aceita, havia fugido por tanto tempo e de repente estava de volta. Agora não era hora de desistir. E num rompante daqueles que a gente tem poucas vezes na vida, tocou a campainha.

     Dona Zefa abriu, a recebeu com um enorme sorriso e convidou-a para entrar. Contou-lhe sobre o progresso da cidade, sobre o casamento da Dorinha e de como a artrose tinha pegado-a de jeito naquele inverno. Cecilia viu na parede varias fotos e um quadro contendo um livro verde escrito em letras cor de vinho: Tomas Azevedo. E antes que tivesse que fazer o inevitavel, a senhora lhe disse que ele havia se mudado. Tinha comprado uma casa a beira do lado e morava la desde então. Caminhou até a mesinha, anotou o endereço num cartãozinho e deu-lhe dizendo: “Permita-se. Seja menos racional. Deixe suas emoções te conduzirem.”

     E atordoada, ela seguiu. Aquelas palavras ainda soavam em sua cabeça. La estava. A casa, o lago e ele redigindo alguma coisa na varanda com uma xicara de cha. Nunca teve tanta certeza do que fazer como naquele momento. Saiu correndo, entrou na casa e subiu as escadas. Quando chegou na varanda parou. Recostou-se na porta e as palavras sairam da sua boca:

     —Eu sempre esperei por você.

 

     As flores ficaram murchando no corredor. Não havia mais perfume, não havia mais degradê e estavam se decompondo, pouco a pouco. Destino. Estavam ali, vendo a vida passar. Cumprindo sua missão. Destino. Nada acontece por acaso, porém cabe a cada um construir o seu. Mostrou o quão afetuoso podia ser um olhar, quão transformador é uma interpretação e o poder do espelho. Por-se frente a frente com o que você realmente é. Destino. Depende do seu olhar, de como interpreta os sinais de mudança. Ser racional nem sempre é ter razão. As vezes as melhores coisas acontecem num impulso incontrolado. Uma voluptuosidade de emoção incontida. Destino. Sonhos não envelhecem, apenas amadurecem com você. Destino. Ele ecoa em você. Feche os olhos, e deixe ele te guiar até mesmo por um bouquet…

                                                        FIM

                                                                                             Tassiana Frank

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

3 Respostas para “

  1. Sem palavras, Tassi. Destino.

  2. Allana

    Tassi, adooorei!!! Muito bom o final…
    Parabéns!

  3. Hud

    Peraê que tô meio atordoado… quando tiver palavras eu te escrevo! rs.
    Parabéns!!!

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