O Clichê do Tabaco

 

     Era madrugada e estava frio. Eles se conheciam a relativamente pouco tempo. Digo relativamente porque ela tinha a impressão de que ja era muito e a certeza de que passaria o resto da vida conhecendo cada dia mais. Ela pensava isso tudo em silêncio, enquanto olhava pra ele. Ele olhou pra ela, sorriu um tanto envergonhado e deu-lhe um beijo. Em seguida, tirou do bolso o maço e acendeu um cigarro como de costume.

     Ela se virou quase caindo do muro pois de lado não podia olhar em seus olhos plenamente. Com uma mão, acarinhou-lhe a face, e com a outra, tirou o cigarro de sua mão. Deu um trago (o que muito lhe admirou afinal, ela não fumava) e jogou-o rua afora. Ele a olhou espantado, e antes que pudesse desgrudar seus labios, ela disse:

     –Posso lhe contar um breve porém futuro e grande relato?

     Ele assentiu com a cabeça, e ela começou:

     –Não ligo a minina se você fuma. Pra ser sincera, acho até charmoso quando você fica pensativo com um cigarro entre os dedos. O cheiro tampouco. Gosto dessa mistura com o perfume, tem um aroma de verdade. Mas é que eu me preocupo com você. Hoje, ainda corre e sobe as escadas numa falicidade enorme. Diz que vai parar, mas porque se ja se habituou? “Tudo faz mal”, você me diz. Aos trinta, teremos filhos e eles não vão ingerir essa fumaça. Seus dentes vão ficar amarelados e não ha clareamento que resolva.

     Aos quarenta, a voz vai estar rouca e não vai conseguir cantar nem parabéns sem desafinar. Vai estar fumando dois maços por dia e vai passar pro Carlton vermelho pra aliviar o estresse do trabalho. Aos cinquenta não vai respirar direito, o Joca vai estar fumando cigarro de menta por sua influência aos 16 e vai andar igual a uma tartaruga envergada.

     Aos sessenta, vai estar fumando três maços por dia e vai ter insuficiência respiratoria. Vai começar com a falta de ar, o pigarro a cada três palavras e dois passos por minuto. Até que nos sessenta e cinco alguém vai me ligar e eu vou correndo para o hospital rezando no caminho, para que seja uma falta de ar mais forte e que o diagnostico não seja o câncer de pulmão.

     Nos iremos ganhar mais um dias de ar puro até que nos setenta, todos acharão que eu sou sua filha, pela aparência muito mais jovem. O câncer de pulmão ja não sera mais um possivel diagnostico, e sim uma realidade. Vamos passar meses quem sabe anos no hospital e um dia pela manhã quando eu estiver lhe levando um chocolatezinho escondido da enfermeira, você estara fumando. Eu vou tira-lo da sua boca e tampar pela janela. Você vai me mandar a merda e eu vou pensar que no seu primeiro rompante de agressividade eu imaginei que isso iria acontecer.

     Vai acender outro, sacudir o jornal, dizer que comprou o cigarro com seu dinheiro, que o pulmão é seu e que aquela hora eu não devia estar ali. A enfermeira vai me olhar com piedade e dizer: “Não liga não, ele esta nervoso. ”

     E eu vou estar em pé, humilhada, olhando pra você que vai me ignorar e ler as noticias do dia. Vou deixar o chocolate na mesa. Uma lagrima vai cair no meu rosto e eu vou chorar no corredor. “Eu ainda te amo.” Vou pensar.

     Resumindo, você tem o direito de se matar aos poucos, mas não de me fazer sofrer. Se for essa a idéia, atire logo, lhe indico o coração.

                                                                                                Tassiana Frank

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

2 Respostas para “

  1. Prática ela, não? rsrsrs… Adorei!

  2. Allana

    Muito Bom!! Adorei!!

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