Nas Horas 

     Sabado, quatro e meia da manhã. A campainha toca uma vez. Toca duas e três. Ian ignora. Toca pela quarta vez. Ele esquece. Toca pela quinta vez e ele vai mais ansioso do que sonolento atender a porta. Afinal, ele quer saber o que ela quer dizer aquela hora. Se esta bêbada. So pode estar…

     Sexta vez. Ele abre a porta. Ela não esta bêbada, mas tem uma garrafa de vinho nas mãos. Ninguém diz nada, ficam parados por meia-hora. Ele na porta, ela no corredor. Até que ela faz sinal de que precisa abrir o vinho, entra e ele fecha a porta. Ele pensa: “ela vai pedir desculpas” e ela pensa: “eu quero pedir desculpas.” Ela abre o vinho e bebe na garrafa. Ele pensa:” ta nervosa.” Ela pensa: “diz alguma coisa, diz alguma coisa” e encostou na pia da cozinha. Ele bebeu um pouco do vinho. Ligou o som e apagou a luz.

     Ela acendeu o abajour, não dava pra ver nada naquela escuridão. Não dava para vê-lo. Ele estava deitado no sofa e pensou:” não vou fazer nada.” Ela pensava: “ele não vai fazer nada.” Abriu outra garrafa que tinha na geladeira, e pensou: ” se fosse ha um tempo atras…” e ela: “foi so uma vez.” Ja era domingo, nove e meia da manhã. Ele fechou a cortina meio embriagado. Terceira garrafa de vinho.

     Ela desencostou da pia e sentou no braço do sofa. Ian se levantou, colocou um vinil e deixou que Bethânia dissesse por ele. A musica começou e ele se sentou em seu lugar, em seu sofa. Ele cantava, ela também. Olhou bem no fundo de seus olhos e calou-se diante do refrão: “Olho nos olhos, quero ver o que você faz. Ao sentir que sem você eu passo bem demais.” Ela não olhava pra ele, ele não desviava seus olhos dela. Ele pensava: “e agora?” e ela pensava: ” é agora!” A musica continuou tocando, ele continuou cantando e ela então ergueu seus olhos. Pela primeira vez naquela noite disse alguma coisa. Disse à ele.

     — Farei, quado você puder me dizer — e aumentou a musica — ” quero ver como você suporta me ver tão feliz.”

     Ele retraiu o olhar. E pensou: “sou tranparente.” e ela pensou: “é agora!” Desceu para o assento do sofa, e beijou-o com afeto, com desculpas, com arrependimento, com amor. Ele não pensou. Beijou, mas não pensou. Sentiu.

     Sentiu calar-se. Despir-se de seu orgulho, de seu rancor. Sentiu no silêncio das horas o conforto de sua alma livre. Livre para voar, livre para amar, livre para ser insuportavelmente feliz.

                                                                                                                                      Tassiana Frank

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

3 Respostas para “

  1. Allana

    aaai que lindo! =)

  2. hupokhondria

    Uau… Não saem mais palavras.

  3. Tiago Vitor

    Tassi… sei muito bem como são essas situações. Olhar a fila de um banco por um outro ângulo me revela muito mais que pessoas interessadas em pagar suas contas ou saber seus saldos. Algumas carecem de diálogo… mesmo que este comece falanso do tempo lá fora.

    Lindo!

    Beijo!

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