Nos bastidores da vida

 

     Fila do banco. Uma senhora inicia um dialogo.

     Era uma senhora de uns setenta anos, modestamente vestida. Aparentemente bem e esperta, com uma sacola contendo um pacote de rosquinhas em sua mão. Ela pergunta as horas para a mulher atras dela, numa tentativa de iniciar uma conversa. A mulher devia ter uns quarenta e cinco anos, salto alto, joias reluzentes e aparência de insatisfação. Aparenta não suportar estar ali. Se esquiva das pessoas que passam por ela esperando não ser tocada como quem evita o contagio de uma doença.

     Ela responde, “são três horas” e a senhora se vira para a frente. Numa segunda tentativa, ela fita a janela. “Sol forte. Mas aqui dentro faz um frio né?” A mulher a olha com desdém. “é o ar.” E a velhinha insiste, “eu não gosto. Todo mundo respirando o mesmo. O ar não circula. Depois as pessoas não sabem porque gripam. Eu ando previnida, quer ver…” e antes que ela pudesse terminar a mulher deu um salto pra tras, abriu a bolsa e pegou o celular. A velhinha so queria mostrar o spray de mel e propolis, faz bem a garganta.

     Na porta do banco. Um homem entra apressado.

     Um homem novo, uns trinta anos. Casaco de capuz. Dificil visualizar seu rosto. Ele entra apressado, parece relutar em entrar. Da um passo a frente, dois para tras. Esta no canto da sala. Olha para o vigilante, lança olhares aflitos por todo o banco como se estivesse procurando por alguém. De repente para. Pensa um pouco, balança as mãos. Parece ter encontrado a pessoa. E começa a caminhar, seguro.

     Fila do banco. A senhora olha para frente, e a mulher fala ao celular.

     A senhora havia entendido o recado. Virou-se definitivamente para frente, cabisbaixa, sem nada falar. A mulher bradava ao celular “O carro esta no estacionamento. E eu? Você não vai acreditar. Tô no banco. Precisava efetuar um pagamento e não tinha ninguém pra fazer isso por mim. Pois é, esse lugar lotado. Ainda perdi o horario no salão…”

     Dentro do banco. O homem para.

     O homem de capuz para ao lado da mulher. Da-lhe um abraço como se a conhecesse, encosta por debaixo do casaco a arma em sua cintura “Isso aqui é um assalto dona, desliga o telefone. Põe as joia tudo na bolsa, o relogio, o celular e o oculos também. Qual é o carro? De boa cola no estacionamento? Então, vô deixa a dona agora. Mas vai fica de bico quieto porque eu num tô afim de treta pro meu lado valeu? Tô vazando.” E saiu como entrou, apressado.

     Fila do banco. A mulher tremendo, cutuca a velhinha.

     A mulher tremia. Cutucou a velhinha que prontamente olhou para tras. ” Me ajuda” disse num sussuro. E ao ver a face palida deu por falta os adereços que adornavam aquela mulher minutos atras. E entendeu o que havia acontecido. Pegou-a pelo braço, saiu da fila e sentou-a em uma cadeira. Voltou com um copo de agua. ” Não tenho muito filha. Não tenho celular e ainda não peguei o pagamento. Mas tome, pelo menos não volta pra casa a pé. De coração.” E estendendo a mão, entregou-lhe um vale-transporte.

     O esgoto fede. Mas tem um cheiro adocicado diante da podridão do mundo.

                                                                           Tassiana Frank

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

4 Respostas para “

  1. Allana

    As pessoas que menos esperamos e de quem menos merecemos ajuda, são, muitas vezes, as únicas que nos estendem a mão!

  2. ” Esse cheiro que voce tá sentindo… é do ralo. ”
    muito bom, é assim que acontece na vida mesmo, de fato.

  3. hupokhondria

    Em todas as circustâncias da vida, até nas filas de banco: o encontro está na nossa frente; somos nós que optamos pelos desencontros…

  4. andrearomao

    final surpreendente
    a vida é assim

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