Cotidiano incomum

     Manchete do Jornal (dia seguinte):

     Entrada de emergência no hospital: Vitima de desabamento resgatada das escoriações gravida, é encontrada quase sem sinais vitais apos quarenta e oito horas do acidente.

    

     Dia nada comum no hospital geral da cidade. As sirenes soavam com desespero e as mas noticias chegavam com uma frequência cada vez maior.

     — O prédio da prefeitura desabou, todos os internos agora na ambulância! – alguém gritou.

     Todos se apressavam. Kits, gases, casacos, mantas e curativos. Tudo que pudesse ser util, tudo que pudessse salvar uma vida. Mas e o Renato? Cadê ele?

     Renato, era o tipico bonitinho de vinte e poucos anos. Tinha um cérebro ofuscado por sua canalhice, suas vitimas eram sempre escolhidas a dedo (afinal, quando elas se recuperassem…) e possuia o dom da fala. Conseguia aplicar uma injeção, fazer uma sutura ou te dar um beijo sem o seu consentimento. Mas onde ele estava? Provavelmente no almoxarifado com alguma enfermeira, médica ou paciente… Nada incomum. Todo mundo sabia o que virara o almoxarifado e todo mundo sabia quem estava sempre la.

     As sirenes ainda ecoavam e Joana furiosa, foi direta. Abriu a porta mandou que ele se vestisse e que entrasse naquela ambulância. Sairam. Todos em rumo a destruida sede da prefeitura. Renato envergonhado olhava para Joana, e ela se recusava a olhar para ele. Sentiam medo. Medo do que veriam, medo de não poder ajudar ninguém, medo de chegar. Queriam ficar ali, imoveis. Mas a ambulância parou. Ouviam-se gritos e eles desejaram que a porta não abrisse.

     Quando a porta se abriu, uma névoa de fumaça. Bombeiros com mangueiras em punho, pessoas corriam sem destino, crianças choravam. Via-se sangue no chão, gente desmaiada soterrada por escombros, um homem se contorcia sob um carro amassado e uma mulher em prantos, segurava a sua mão.

     Naquele barulho infernal, helicopteros circulando no ar, o pânico cessou. De repente o silêncio se instalou dentro de cada um. Eram apenas internos, não eram médicos ainda. Seriam capazes de aguentar aquilo? Estariam preparados?

     Estavam imoveis, e Joana de subito se abaixou junto ao homem que se contorcia. O choque passou. Cada um corria para um lado, procuravam ajudar quem quer que fosse.

     Curativos, remédios, hipotermia, queimaduras, fraturas. Bombeiros ainda procuravam sobreviventes. E os escombros continuavam a cair. Começou a chover e as buscas estavam sendo interrompidas. Pessoas removidas, os atendimentos locais não surtiam mais efeito e havia risco de novos desabamentos. Renato corria pelos escombros em direção a uma outra ambulância a fim de conseguir mais medicamentos e escutou um sussurro.

     Era quase inaudivel, mas ele escutou. Embaixo de blocos de cimento, colunas de ferro e uma placa de madeira estava uma mulher. Ele arrastou o bloco, pode ver seus olhos (era a unica coisa que ela podia mover) e constatou, estava viva.

     Pediu ajuda, começou desesperadamente a empurrar a placa e a chutar a barra de ferro. Finalmente conseguiram tirar ela de la. Estava viva, estava gravida! Levaram-na até a ambulância que partiu direto para o hospital.

     Mexia os olhos com desespero querendo saber de seu bebê. Estava toda inchada, seu rosto deformado e era impossivel identifica-la pela aparência de antes do acontecido. Foi sedada, fizeram os exames e a levaram pro centro cirurgico. “Essa é uma cirurgia importante Renato, preciso de alguém com mais experiência. Não posso deixar você participar” disse o cirurgião sumindo pelo corredor. Como não podia se havia salvado a sua vida? E o bebê? Ele chorava com raiva, com indgnação e sem se preocupar com as consequências, entrou apenas para assistir a cirurgia, para segurar a sua mão.

     Ela foi estabilizada, e o bebê retirado com segurança. Por ser prematuro e estar ainda tão magro, foi direto a incubadora onde ficou por mais um mês. Ela, a qual não se sabia feição ou nome ficaria ali também por mais algum tempo. O inchaço precisava ceder, necessitava de enxerto, correções plasticas e implantar alguns pinos. Foram dias dificeis e Renato estava ali, dando-lhe sopa no canudinho, fazia questão de cuidar da sua paciente. Estava ocupado demais para as visitas ao almoxarifado.

     Era o primeiro a chegar, o ultimo a sair. Chegou até a dormir algumas noites no hospital. Ja era mais do que cuidado médico, mais que atenção especial. Estava eternamente ligado aquela desconhecida. Não sabia quem era e nem como era, mas possuia lindos olhos azuis…

                                                                    Tassiana Frank

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

3 Respostas para “

  1. marcinha

    Narrativa sensível e cinematografica!!! Adorei a cara nova do blog e também a produção que está crescendo a cada dia em quantidade e qualidade! Siga em frente!!!

  2. hupokhondria

    Tão Grey’s anatomy… rsrsrs… Muito bom, Tassi!

  3. andrearomao

    infinitamente melhor escrito do que contado
    hehehe
    até acredito que eles possam ter um final feliz agora

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