João

     Ja era dia e João não sabia quem era, nem o que fazia. Quando saiu de casa aos dezenove anos, sua mãe lhe pedira para ficar, seu pai lhe mandara embora. Ele nunca foi do tipo correto porém, não era do tipo errado. Era uma espécie de descompromissado. Um perdido na vida.

     Seu pai queria que fizesse direito, sua mãe medicina e ele fez economia. Contudo, não aprendeu a ser econômico, se não fosse pela mesada gentilmente depositada por sua mãe, não passaria o mês ou quem sabe a vida. Acordava as onze, almoçava as quatro, dava uma volta de carro as seis, chegava as onze e dormia as cinco. As vezes acompanhado, as vezes embriagado.

     Falava pelos cotovelos, não escutava ninguém. Não trabalhava, não estudava, não fazia nada, em tempo integral. Foi por isso que seu pai lhe mandou embora e foi por isso que cortou naquele dia a mesada depositada pela esposa. Aos trinta e dois, não era possivel que não pudesse se sustentar, ou pelo menos tentar.

     Não havia sido informado, exceto pelo fato de seu cartão ter sido recusado no posto de gasolina. Foi ligar para a mãe, mas a conta do celular também não havia sido paga. O aluguel estava atrasado, e por baixo da porta uma carta chegou. Havia um endereço e um horario com um dizer: “é bom você estar la.” A letra era de seu pai, isso ele sabia. Não quis contrariar, afinal ele não estava em posição de discutir nada e precisava de dinheiro

     Quarto andar, primeira a esquerda, barulho de salto, corredores lotados, telefones tocando, calor insuportavel e cheiro de produto de limpeza. Escritorio de contabilidade. Pilhas de papéis a sua frente e computadores abarrotados de numeros lhe indicavam o destino das suas horas vazias.

     Ele se sentou e uma mulher baixinha e mal-humorada lhe explicava freneticamente o serviço. Havia um computador, uma caneta e um bloco de anotações. Recebia uma projeto, calculava os possiveis lucros ou perdas. As vezes um cliente ligava pra fazer a declaração de renda, ou problemas com o imposto, cnpj ou cpf. Estava gostando dos numeros.

     Se sentia bem, e com o tempo foi pegando mais agilidade nos calculos. Mas o salario que era pouco, pra ele era muito pouco e demorava a chegar. Não sustentava suas baladas, sua gasolina e o Red Label do fim de semana. Sua mãe não mandava mais a mesada e a relação custo-beneficio estava ficando insustentavel. Seu celular tocou e como estava no escritorio, foi atender no banheiro.

     Era um homem de voz imponente que lhe informou sem delongas o seu objetivo e disse que pagava bem. João suava frio, as mãos tremiam e ele quis saber do que se tratava, pelo menos. Mas so escutava: “pago bem, pago bem”. Não devia ser nada demais, e sonegar umas coisinhas ali, não é um bicho de sete cabeças. Era rapido e pagava bem… ele aceitou.

     Depois de feito o primeiro, veio o segundo e o terceiro. Ninguém desconfiava, o dinheiro estava fluindo, trocou de carro e reformou o apê. Tudo ia bem. Tinha pouco trabalho e ganhava bastante dinheiro. Seus pais estavam felizes e ele um buon vivant. O que mais podia querer?

     Sabado a noite, e como era de costume passou no morro pra pegar o teco da noite. “Pra você não tem aqui não, o patrão mandô tu subi.” E ele escoltado foi subindo as vielas da favela. Com um trabuco encostado na nuca, congelado por dentro não sabia o que fazer. Não devia nada na boca, não entendia a intimação. So sentiu o sangue gelar a espinha e o medo se apoderar de sua alma como nunca antes havia sentido.

     O cara do trabuco lhe indicou uma porta e o homem la dentro chamou seu nome. Como sabia seu nome? João se sentou rapidamente e o cara objetivamente começou a falar. Aquela voz, ele conhecia aquela voz e aquela objetividade. Era o seu patrão de servicinhos escusos! Agora fazia sentido, estava tão focado na grana que nem se deu conta de como aquele homem sabia seu nome, seu celular, seu trabalho. Como conhecia sua vida. Ele sonegava pro trafico de drogas, quem sabe até de armas.

     O homem traficante dono-da-boca seu patrão, tinha um novo pedido, alta recompensa e foi logo alegando que ele não podia negar. Que conhecia sua casa, seus pais, seu trabalho. Sabia desde o seu rg até a senha da conta bancaria. Era um serviço mais complicado, mas nada que ele não conseguisse fazer. Precisava desembarcar uns produtos na Gringa. Precisava entrar com trinta e duas mulheres que ele tinha vendido pros gringos.

     Ja era noite. E agora, João sabia quem era e o que fazia…

                                                                  Tassiana Frank

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

3 Respostas para “

  1. Avner

    Tassi, como sempre, PARABÉNS!
    Vc consegue nos deixar sem ar com seus contos!
    Do maior fã, Avner

  2. hupokhondria

    Já estava com saudade das suas palavras… Muito bom MESMO!!!!

  3. e se o palhaço fosse de aço, não seria palhaço. Seria sim, o estardalhaço de um sorriso deslavado!

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