Vendedor de Sonhos

 

     Ela não parava de rodar! E seria tão bom se não tivesse parado. Não sabia porque, mas eu não conseguia tirar os olhos daquela garotinha girando como pluma no ar. No auge de sua graciosidade, seus cabelos esvoaçavam. A roupa rosa de fada, a varinha de condão. Lia-se desprendimento, felicidade. Uma coragem, como se nenhum mal pudesse atingir. E eu não me sentia assim a muito. Como era de se esperar ela foi ficando tonta, e em seu movimento agora helicoidal, deu de encontro ao chão. Sem problemas, o palhaço a ergueu.

     Ela não voltou a rodar! Ele a pegou do chão e antes que pudesse dizer palavras de conforto ela se pôs a chorar. Perninhas batendo a procura do chão, soluços agudos e gritos estridentes. Olhos nervosos procuravam colo, um lugar seguro. Senti-me capaz e fui sem pensar ‘salvar a menininha do monstro do lago Ness.’

     Guilhermina, era esse o seu nome. Enrolou-se em meu pescoço e não olhava para tras. Sentei na cadeira e percebi que aos poucos cessaram os soluços. Quando enfim se sentiu protegida, soltou meu pescoço e me disse baixinho, como quem confessa uma fraqueza “eu tenho medo de palhaço.” E poucos segundos depois, desviando de mim seu olhar para a bandeja de brigadeiro, foi correndo de encontro aos pedacinhos de doçura.

     Passava longe dele mais contida do que antes, mas de certa forma disposta a enfrentar o monstro, correr pelos balões e comer docinhos. Aquilo não me saia da cabeça. Uma criança, ser tão fragil me parecia tão segura e confiante. Livre agora, acuada depois e reerguida continuamente. Era tudo intenso e efêmero. Não hesitava muito e nem pensava em consequência. Mas porque o palhaço se era ele aquela figura colorida desengonçada, de sorriso largo disposta a arrancar-lhe a gargalhada contida? Nunca soube, mas começei a entender.

     Minha luz dispersa se acendeu em um medo de criança. Sempre vi o palhaço como um vendedor de sonhos. Acharia eu que uma pessoa qualquer fosse mais assustadora, mas ela via com clarevidência, via além. A figura humana é cheia de defeitos, comum. Ele, com sua mascara de expressão feliz oculta sua face do mal humana; é imprevisivel, dissimulado. De tanto reprimir seus defeitos, provoca o temor da sua explosão humana. Vende sonhos, mas a noite também traz pesadelos. Nunca se sabe como sera o pesadelo da figura feliz. Nem quando chegara, mas existe o reprimido lado que faz infeliz.

     Venda seus sonhos, exponha suas fraquezas, faz-te humano e feliz. Essa é a condição da existência. Exista!

                                                                               Tassiana Frank

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

Uma resposta para “

  1. hupokhondria

    Que lindo, Tassi…

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