Quando se vende a alma à Dionisio

 

     Estava cansado de representar. A tanto aquilo não vinha lhe dando prazer. Sentir-se feliz é sinal de que não se vive inutilmente. E a sua cota de felicidade naquilo, ja havia se esgotado.

     No começo, nada lhe dava maior prazer. Despir-se de si mesmo e dar vida a quem quer que fosse. Um mendigo, rei, filosofo, assassino ou ladrão. Emprestou sua alma a Macbeth, serviu a dois amos inumeras vezes e arrancou suspiros como Lisandro. Se feriu como Calibã, comprou seu apartamento graças a Cabaré e o hipotecou pelo Balcão de Genet. Foi recluso pela Puta Respeitosa e solto graças a sua atuação no infantil Peter Pan (a filha do delegado tinha amado a montagem, ela não podia ver seu idolo na cadeia)!

     Sua vida era desejada por muitos e fatigadamente vivida. Bares quase todas as noites, passe livre para as festas, mulheres jorrando aos pés e horario flexivel. Dormia as quatro, acordava meio-dia. Ninguém sabia, mas sua cabeça era um inferno. Depois de muito tempo, os personagens perdem o controle e passam a dominar você. Ele se pegava cobiçando Ariel, duelava em meio a rua com Demétrio e travava monologos com Othello.

     Não podia dizer que a arte não havia lhe dado nada. Sua cicatriz na fronte e o pino no pulso eram o que? Eram marcas que o tempo não podia apagar. De material, apenas seu teto para morar. O carro também, mas teve que fazer uns extras como dublador.

     Sentar-se em seu camarim, vestir seu figurino… Se tornar outra pessoa. Todos os dias, como sempre. Ja não se lembrava de seus habitos ou de seus amores. Ah amores, ele teve! Varios. Casos rapidos, efêmeros que duravam até que lhe desse vontade de trocar. Amor, de verdade so amou uma. Mas depois de tanto tempo, ela não abriu mão de sua vida e ele sim. Deixou-a partir, coração fragmentado. Mas por uma paixão maior, aquela que lhe acompanhava na dor e na alegria. Consumia sua vida e até a mulher amada.

     Dizem que existem três definições de paixão. Dor, amor exacerbado e antônimo de razão. Acho que são complementos da paixão, pelo menos ele possuia os três. Se entregou de forma literal, ampla e dilacerante. Queria sua vida de volta. Tempo pra descobrir quem era, seus costumes e até um possivel amor. Gostava de café preto ou suco de laranja pela manhã? Era seu aquele terno ou era figurino?

     Nada de peruca, maquiagem ou falas impressas num papel que definia seu futuro. Olhos abertos, peito rijo e lascivia de mundo. Sentia sede de ser o alguém que se escondia dentro dele. Era tarde para o que passou, mas cedo para recomeçar. Seria injusto dizer que não foi feliz. Mas mais injusto ainda, dizer que valeu a pena.

 

                                                      Tassiana Frank

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Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

4 Respostas para “

  1. hupokhondria

    Dionísio realmente cobra seu preço…

  2. uau!!!!!!!!
    pirei!!!!
    que vida estranha essa… as vezes eu quero me despir dos meus personagens cotidianos
    e buscar um eu mais profundo e autêntico, sem mecanismos e falas pré pensadas…
    parabéns!

  3. Giulia Drumond

    não é a minnie! é a moniquinha!
    rehrouierua

  4. Giulia Drumond

    acho q comentei no troço errado

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