As coisas que eu não disse

 

     Um corredor de hospital nunca foi tão grande e sombrio. Cheirava a dor, sofrimento e solidão. Em toda a minha vida, nunca refleti tanto como naquela mês interminavel. Era julho e estava fazendo um frio de frizar a costela. Sempre achei que a bolha do orgulho era a melhor forma de distanciamento e hoje me pergunto que droga de pessoa eu sou que so compreendo agora e espero sufocantemente que ela abra os olhos, que ela dê um sopro de vida e que de um modo talvez egoista, salve a minha.

     Lembro do dia em que eu a vi. Ela parecia tão distante, tão impossivel pra mim. Não sei porque, mas ela me olhou e acabou até passando o seu telefone pra mim. E nos dançamos bêbados na rua, tomamos um banho de chuva de verão. A coisa começou, eu queria a presença dela, queria ela por perto. Mas como admitir que ela era essencial pra mim? Que queria ver seu sorriso e dizer bom dia de manhã? Ela tinha uma pinta na ponta do nariz e uma adoravel mania de me dar um beijo atras da orelha. Tantas vezes podia der dito. Quantas vezes fiquei mudo pensando o que ela faria com o poder que possuia sobre mim…

     So a fitava nos olhos. E agora nem isso podia fazer. Na vez em que ela me deu aquele livro eu gritei “quero você!”, na hora em que caminhamos juntos pela noite adentro eu berrei “não me deixe” e quando o sol nasceu e ela me beijou carinhosamente eu sussurrei “eu gosto de você”. Mas ela não ouviu. As palavras cresciam dentro de mim, tomavam gigantescas proporções se atravancavam na guoela e não passavam da garganta. Vaidade, orgulho, liberdade? Besteira.

     Nunca me senti tão preso a ela como depois que a perdi. Por minha culpa reconheço. Dias a fio pensando como podia estar gostando de estar sabado a noite em casa com alguém? Como não sentir vontade de ficar com a Maria, a Joana e a Joaquina? Foi como uma perda de identidade, eu não me reconhecia. Me afastei então, voltei a ser “eu”. Retomei minha vida mesmo atormentado, mesmo infeliz achei que seria a melhor solução. Algum tempo passou e eu percebi que eu estava errado e que a minha “desconstrução” era na verdade uma evolução que eu imaturo confesso, não queria ver. Quando enfim fui me redimir, o destino havia achado um jeito drastico de me mostrar. Acidente de carro, traumatismo craniano, ela estava em coma.

     E nesse mês, vaguei pelo hospital. Prostei como um gorgula a sua porta tentando impedir que um mau pressagio penetrasse ali. Sentado ao seu lado, segurando sua mão. Cantando sua musica preferida, coincidência ou não “tell me that you open your eyes” e repetindo infinitas vezes e pedindo o seu perdão. So hoje, quando numa explosão de vida, ela abriu seus olhos por alguns segundos antes de se perpetuar eterna e eu sem poder desfrutar nunca mais de seu sorriso, sem nem saber se ela ouviu, disse o que nunca é em vão: eu te amo.

                                                                                                                                   Tassiana Frank

     ps: eu te amo.

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

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