Hybris

     Ele caminhava pelas vielas da favela procurando uma pedra ou um pedaço de pau. Parecia que todos tinham sido mais espertos e chegado antes dele. A briga ia começar ou melhor, ja tinha começado. Ja desesperado, quase chegando no asfalto encontrou uma lata de achocolatado e ela ja lhe era util. Começou a subir o morro. Os pés suavam frio e escorregavam no chinelo.

     Chegando la no alto, olhou o céu. Azul. Nenhuma nuvem o ameaçava. Tinha o coração cheio de esperança, como se fosse ganhar daquela vez. O almoço estava na mesa, mas ele não conseguia comer de tanta ansiedade. Olhava pro prato e olhava pra mãe. Pegava o carretel nas mãos, conferia a linha e percebia a cada segundo de angustia, que faltava alguma coisa. Ele sabia o que era, mas não ousou dizer. Deu duas garfadas e se levantou.

     Foi até o sofa e pegou sua pipa. Fitava-a com eterna admiração. Passou os dedos pelos quadrados coloridos, apertou bem as amarrações da rabiola, conferiu se os palitos de churrasco que a suportavam estavam juntos, bem colados. Tomou um banho, espiando de tanto em tanto pela cortina de plastico, se sua pipa continuava ali, intacta. Enquanto trocava de roupa, sentia um aperto no coração. Estava faltando alguma coisa.

     A mãe, vendo-o como um bichinho acuado tentava tranquiliza-lo. Era um campeonato de pipa e ele havia treinado muito desde o ano passado. Mas não adiantava. Seu coração batia em um decompasso terrivel e decidiu então sair. Subiu na laje, foi analisar o vento ver se os outros moleques ja estavam na rua. Depois de alguns minutos, o apito do Carlão soou. Ia começar.

     Ele enrolou o carretel na mão, alinhou sua pipa e lançou-a ao vento. A partir dai, não pensou em mais nada apenas na direção do vento, em como manter sua pipa la, no céu azul. Começou o mata-mata. Duas pipas ja tinham caido, as crianças corriam. Outras três se enroscavam e a comunidade gritava. Chegou Doca e sentou no trono. Veio ver o irmão brilhar.

     Um levou um soco e outro uma coronhada. Não se podia cortar o irmão do Doca. Sabendo disso ele apenas se esquivava tentado manter-se firme e tentar uma jogada. Mais um corte e uma porrada. Sobrou so ele e o protegido. Por não conseguir corta-lo, o protegido se irritou. Ele chegava pra longe, mas um corte no rosto ele ganhou. Continuava fugindo e sentiu uma fisgada na perna. Um tiro pra cima, Doca se remexeu no trono. Sabia, era hora de desistir.

     Mas havia treinado um ano inteiro. Engraxava de manhã, ia pra escola à tarde. Quando voltava treinava, treinava até o vento descer e sobrar apenas a brisa da madrugada. Não era justo largar de mão logo agora. Aquele aperto no peito por um instante sumiu. Não se importou por um instante somente com os sinais que lhe foram dados. Cortou a pipa do protegido. A comunidade inteira calou.

     Naquela noite teve festa, churrasco na laje e medalha de latão. Mas vencedor, foi enterrado com sua pipa pra servir de lição pra “comun-idade”. Havia ignorado a lei vigente, a premiação do crime.

                                                                              Tassiana Frank

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Sobre encontroedesencontros

Alguém que por meros devaneios de sua mente louca, sentiu vontade de dizer alguma coisa...

Uma resposta para “

  1. hupokhondria

    Nossa, amiga… Há quanto tempo não passava por aqui… Você está cada vez melhor! saudades…

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